É no mínimo estranho ter um laço inquebrável com uma pessoa completamente diferente de você. Alguém que, se não fosse por essa ligação, você odiaria.
Eu e meu pai somos opostos. Se me nego a engolir ideias pré-fabricadas, ele é dogmático. Se ele é cara-de-pau, sou amarrado. E há aí um lista de antônimos entre os dois que minha preguiça não deixa listar.
Nunca soube demontrar meu afeto por ele. Afeto que tenho, mas cresceu abafadinho entre os inúmeros desencontros.
Hoje eu estava olhando praquele gordo risonho ao meu lado no carro. Os cabelos agora meio brancos, de quem passou por um monte de coisa. E em meio às mãos grossas que estralavam meus dedos pequenos de criança, em meio ao andar pesado, eu enxergo um homem carente. Quem diria, aquele homem grandão que amedronta com voz grave, para mim, é um bobão. Bobão que já me fez sentir muita raiva. E que já me fez feliz pra caramba.
Hoje ele estava me levando pra casa. Jantamos. O que adorei. Eu, morto de cansado, não estava nem um pouco feliz de voltar do trabalho de ônibus.
Virando uma esquinha de sempre, me escapuliram umas palavras que saíram sem jeito: “Pai… gosto tanto de tu”. No meu português carinhoso de pernambucano, na língua que a gente acha para expressar sentimentos. Ele brincou, com seu jeito de pensar rápido, para disfarçar o desconcerto. E ficamos os dois desconcertados.
Meu deu vontade de chorar. Fiquei com os olhos marejados, que nem estou agora. Porra, eu amo aquele ogro. Ele é meu pai. E foi um puta pai durante a minha infância, mesmo enquanto lutava um bocado para se manter. Olho pra ele hoje e vejo que ele é um vencedor. E eu fico feliz de ter estado lá com ele. Na minha inocência, ele era um paizão. Hoje, na minha desilusão, depois de mágoas e brigas e atritos, reconheço: ele é um paizão. Com todos os atropelos, diferenças e tudo mais.
Filho de bobão, bobinho é.
:O
que lindo cac’s!!!!
caramba, me vi nesse texto com o meu pai!
MUITO BACANA!
até amanhã! agora pare de mexer no blog, e vá dormir que amanhã a pauta tá grande!
Tal filho, tal pai. Confesso: me emocionei e vivi o texto. Tenho problemas com meu pai mas reconheço muito dele em mim. Tal qual…
Me tornando fã seu, Caio. Obrigado por compartilhar.
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