Náusea

A nostalgia é um sentimento de perda em relação ao passado. Um sentimento que idealiza e faz sentir como se o que passou fosse uma outra dimensão a nunca ser visitada novamente. Muitas vezes, confundida com saudade. Saudade é mortal. Nostalgia fica, cresce.

Nostalgia foi o mais perto que achei para nomear o sentimento que se apoderou de meus miolos à meia-noite, hora em que eu deveria estar dormindo para um novo dia de trabalho. No meu caso, não quero reviver o passado. Aprender a lidar melhor com ele é o desejo.

Não há nada mais maçante do que lembranças nauseabundas. Lembranças de tempos de sofrimento. O sofrimento que poderia ter sido evitado confronta-se com a teoria de que o que foi vivido ajudou na construção do que se é.

Por isso não posso dizer completamente que me arrependo. Tudo que vivi, todo o fundo do poço me fortaleceu. E coisas boas de lá podem ser resgatadas . Porém me envergonho, muito. Não é vergonha dos outros. É algo pior: vergonha de si. A vergonha de deitar no travesseiro e não poder enganar-se e ter que encarar os pensamentos dos quais não se pode fugir. São os pensamentos recorrentes, fantasmas de portas que não foram bem fechadas e ficaram lá, entreabertas.

O mal de ser orgulhoso é estar sempre num conflito interno. Uma auto-cobrança reflexiva que não deixa em paz na sua espontaneidade.

Eu varri a poeira pra debaixo do tapete. Como sempre fiz em minha mania de viver reticências.

O consolo é saber o quanto eu cresci em relação ao passado. O quanto me deixei amadurecer.

Mais cedo comentei que o tempo em que namorei pela última vez foi época dentre as mais negras de minha vida. Não (só) pelo relacionamento em si, mas pelo conjunto de acontecimentos paralelos e transversais, que configuraram uma atmosfera claustrofóbica em sua contemporaneidade.  Saliento que conheci pessoas maravilhosas, e muito desse universo triste foi obra de minha autoria.

Acontece que os piores infernos estão em nossa cabeça. Pegue uma mente criativa em um momento ocioso e tenha o solo perfeito.

Tempo de quando eu queria ser e não pude. Quis andar mas não tinha pernas. Eu não tinha estrutura. O purgatório existencial, que durou até pouco depois. Neste, a vida foi entre parênteses que fechei sem dar um desfecho.

Então me pego pensando que nunca fui completamente feliz nas vezes em que estive emocionalmente entregue à outra pessoa. Não tanto quanto fui nos momentos em que não estive. Embora não tenha dado conta disso enquanto me entregava. Mesmo tendo me sacrificado sorrindo. Anestesiado pelo “amor”, dei tudo que eu não tinha e tirei a terra do meu chão para construir uma casa para dois. Cavando sob mim um buraco. Meu orgulho hoje ainda me martela por tê-lo sufocado.

“Quando o amor se hospedou todo mal se desfez, toda dor teve fim, pois quem cuida de mim é o amor outra vez.” disse Dori Caimy. Nisso que quem ama acredita. E quando o “amor” vai embora o mal sai debaixo do lençol.

Complemento: “Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido.”.

Descobri então que o amor pede cama firme para deitar-se. Ele pede estrutura que não tive. E que estou construindo tijolo a tijolo, sobre a qual pretendo construir minha casa de solteiro. E quem sabe – um dia – convidar alguém a entrar.

A grande verdade é que ninguém sabe me fazer feliz melhor que eu mesmo. A grande verdade é que aproveitar seu tempo consigo é prazer único.

Prazer que estou vivendo, talvez como nunca antes. E quero prolongar, poder falar de frente para o espelho: “Eu sou feliz.”.

Sim, eu sou feliz. Sem dever satisfações, posso me aventurar.

As portas entreabertas, anote, vou fechar. Os fantasmas eu mando pra outro plano. Quero enfrentar os monstros e poder aproveitar completamente o gozo do meu novo começo.

Talvez as ideias acima não estejam coesas. Talvez minha mente não seja coesa, pois essas palavras arranquei de lá, para poder dormir.

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