Tem que saber ser

Que nem cachorro, a gente é adestrado. Pela cultura, pelas vezes em que quebramos a cara e pelas consequências das merdas que se faz. Provavelmente é assim com todo mundo, menos comigo. Costumo pensar que quando nascemos só tem uma quantidade determinada de inteligência pra ser dividida entre as categorias: me deram inteligência emocional demais, mas nenhuma na esfera do adestramento. Em resumo: a única coisa que aprendi foi a não chorar o leite derramado, deixando de saber como evitar derramá-lo. Entusiastas de astrologia diriam que é o conformismo virginiano, mas, porra, eu tinha que ficar só com a parte ruim?

A fantástica capacidade de não se tocar com os próprios erros em série:  defeito de fábrica ou resultado da minha criação, não sei. Mas não serei tão cara de pau a ponto de culpar meus pais nesse dossiê do jovem adulto descarrilhado.
Também me foge à ciência se o fato de eu racionalizar (sempre) e fazer uma autoanálise dos meus problemas piora o quadro. É tipo reconhecer que algo não está direito e não fazer nada pra arrumar.
Esse texto — que eu não queria que virasse uma mini autobiografia — sem protelação, serve pra tentar organizar na minha cabeça os fatores que me levaram a não ter aprendido a me esforçar. Outra variação de um tema, sobre o qual há anos tenho escrito.

Eu não aprendi a me esforçar. 

Com menos de dez anos já não havia babá nem ninguém pra me podar. Reinava nas tardes da casa, que eu virava de ponta-cabeça enquanto minha mãe estava no trabalho. “Faz o que você quiser, mas quando eu voltar, quero tudo organizado”. Eu nunca tive muitas regras fora essa. A responsabilidade pra mim sempre foi questionável, e sempre tinha alguém pra me dar a mão quando me sufocava com meus desacertos. Meu caminho mais rápido entre dois pontos sempre foi o jeitinho, e, encerrando a autobiografia, prometo, fui me arrastando por debaixo das cancelas da vida (com o perdão da pieguice metafórica).

Mas oi, né. Não é assim, e na absoluta maioria das vezes dá tudo errado, e continuo numa compulsão ilusória de que vou sempre desenrolar da próxima. E feito um video game, a gente vai perdendo as vidas,  até não ter uma próxima pra desenrolar.  Delusional young man. “Mal da sua geração”, mas e aí?

— Caio, você é muito talentoso!

Me disseram isso quando eu era pirralho, acreditei. Cresci e, ao escutá-lo, novamente cri.
Cri que ia conseguir me sair das situações com quaisquer coisas especiais que eu tivesse dentro de mim. Uma lambida, uma gracinha e um abanar de rabo pra reconquistar depois de ter destruído o estofado de alguém.

Mas o mundo, ah, o mundo. Não quer saber do seu talento se você não se mexe pra colocar em prática.
Sempre achei os conselhos que meu pai me dava as maiores frases-feitas do século, e me vejo envelhecendo e tirando, da pior maneira, as mesmas conclusões que o Brasil inteiro já tinha tirado — e ele havia feito o favor de alertar. Aí bate uma mega crise do jovem adulto, surtando com o fato de que meus trinta anos vão chegar voando, não vou ter vinte e poucos pra sempre e que Simone vai chegar em dezembro perguntando o que eu fiz, e não vou ter muito o que responder.

Como em toda boa redação, um sopro de esperança.

Eu não sei se sou é muito esperto ou muito burro, mas meu placar parece apontar pra segunda opção. E tenho é que me convencer  disso. Que sou medíocre, igual a todos, e devo, dentro do que me faz feliz, realizar, construir. Entender que talento não é matéria, é ferramenta.

Mas quando, quando, essa cartilha decorada vai entrar na minha cabeça de verdade?

A esperança é que uma hora vou me aprumar. Nenhuma novidade nem revelação. Eu preciso é acontecer, pensar menos, fazer mais. Não adianta racionalizar sem concretizar.

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3 comentários sobre “Tem que saber ser

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