Não é só pelo casamento.

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Essas eleições em particular tem dado aos direitos da comunidade LGBT uma visibilidade sem precedentes, tornado-os uma das bandeiras importantes na disputa presidencial. Esse holofote repentino conquistado pelo tópico faz dele alvo do bombardeio de opiniões online, e em posição de vulnerabilidade em relação às interpretações inconsistentes. É importante que algumas informações sejam postas em perspectiva para que os cidadãos LGBT e a população em geral entendam a necessidade de fazer um voto que seja favorável ao avanço dos direitos humanos no Brasil.

O posicionamento do seu candidato (seja a presidente, deputado ou senador) às questões queer não é simplesmente ser “contra nem a favor”. Ele é um termômetro para diversas outras posturas, como seu relacionamento com líderes religiosos (1), sua capacidade de exercer um governo dentro da laicidade estabelecida na constituição e o valor que ele dá em proporcionar às minorias uma vida digna, com direitos iguais. 

Uma das críticas mais comuns à causa é que a “agenda” da “comunidade gay” é voltada somente para o casamento. Esse tipo de julgamento ignora completamente os casos diários de violência com motivação homofóbica e transfóbica que ocorrem em cidades de todos os tamanhos do norte ao sul do Brasil, crimes que causam dor, morte e sofrimento. Proteções legais a exemplo da PL 122 são imprescindíveis para a construção e promoção da liberdade para todos. Materiais didáticos antipreconceito nas escolas — como proposto no polêmico “kit gay” — são sim necessários, quando formulados de forma responsável e ética. A educação como essencial combate à desinformação deve sim englobar conteúdos que promovam a tolerância e a cidadania. Ninguém nasce preconceituoso, isso se aprende. E da mesma forma que a discriminação é ensinada, a tolerância não só pode como deve ser repassada como conhecimento. Não estamos nos vitimizando nem buscando qualquer favorecimento. Não queremos fazer quaisquer propagandas de orientações sexuais ou identidades de gênero (sendo essa uma das acusações mais tolas e torpes que se pode fazer). O que precisamos impreterivelmente é de medidas pelo nosso reconhecimento e respeito como classe.

Embora alguns de nós tenham a falsa de sensação de viver numa bolha de segurança e tolerância (experimentada pelos que tiveram a sorte de nascer em contextos sociais mais aprazíveis) não é aceitável negligenciar a realidade dos semelhantes que são atacados diariamente com agressões. Em uma situação ideal, leis como a PL 122 não se fariam necessárias; mas esse não é o caso do nosso país, e ignorar isso, seja você LGBT ou não, é no mínimo irresponsável. Votar em prol da igualdade não é uma atitude egoísta. Não é simplesmente “colocar o futuro do país à mercê do interesse de uma minoria em constituir família”. É na verdade uma atitude nobre que pretende garantir a uma população historicamente perseguida os direitos civis mais importantes: à vida e a liberdade.

Importante também lembrar que os “direitos gays” são apenas um estandarte para diversas outras causas de minorias que continuam a ser oprimidas. Quem governa para as minorias, governa para todo mundo. Novamente, não é só pelo casamento civil igualitário. É por direitos para todos. Quem se cala e se anula diante da opressão está naturalmente do lado do opressor — cujo interesse está em permanecer numa posição de superioridade, e permanecerá até que nos empoderemos e utilizemos da força da democracia para mudar essa realidade. Votar “gay” é votar pela vida.


(1) A generalização de modo algum é a melhor argumentação. Tolerância deveria vir de todos os lados, porém é um fato que o fortalecimento da bancada evangélica no congresso é uma pedra no sapato dos direitos humanos. Basta uma pesquisa rápida para entender como quem quer chegar ao céu faz um verdadeiro inferno na terra na vida de quem precisa de proteções legais  — a vergonhosa discussão referente a legalização do aborto é um dos exemplos mais claros.

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